sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Presidente em entrevista ao Jornal Expresso


Bruno de Carvalho deu uma entrevista ao Jornal Expresso onde se refere ao mais recente entendimento com a NOS. Amorsporting publica aqui essa entrevista onde se destacam várias frases que primeiro aqui deixo:
-"É, de facto, o maior negócio da história do futebol português"
-"O mercado reconhece a grandeza, credibilidade e solidez do projeto do Sporting"

-"Este dinheiro é cash. Agora, vamos esperar para ver os relatórios e contas dos outros, para se perceber qual a real diferença entre os contratos"
-"E no Sporting também não pagámos nenhuma comissão por este contrato…"
-"O Sporting joga já este clássico com a NOS na camisola"
-"A não entrada na Liga dos Campeões, foi um revés, mas com este contrato acho que resolvemos alguns problemas"
-"Quero um Sporting vencedor, campeão, com mais sócios ainda, e tudo farei para chegar aí. Quero fazer melhor, melhor, melhor…"
-"O dinheiro vai para o Sporting, não para bancos ou comissões"

“O dinheiro da NOS não vai para bancos ou comissões”

Bruno de Carvalho, presidente do Sporting, fala dos contratos do Benfica e do FC Porto, da mentalidade do futebol português e explica porque é que, lá em casa, são os canais da NOS que passam na TV.

Horas antes do Sporting-Paços de Ferreira, Bruno de Carvalho recebe-nos na SAD para nos explicar, afinal, que acordo é este que o Sporting acabou de assinar com a NOS. “É, de facto, o maior negócio da história do futebol português”, diz ele, frisando que quer continuar a engordar o currículo do clube e a emagrecer mais uns quilinhos. “Já perdi 13”. O presidente do Sporting fala dos contratos do Benfica e do FC Porto, da mentalidade do futebol português e explica porque é que, lá em casa, são os canais da NOS que passam na TV.

P – Quando começou a negociar?
R – Para o Sporting era importante perceber como se iriam posicionar o Benfica e o FC Porto. As conversações existiam, o Sporting nunca negou, mas há que esperar sempre pelo momento certo, sem pressas.

P – O Sporting beneficiou por ter sido o terceiro a chegar a acordo?
R – É como olhar para o futebol: se o mérito é de quem marcou mais golos ou o demérito de quem os sofreu. A minha estratégia foi esperar para ver o que acontecia nos rivais e, depois, a partir daí, fazer valer a dimensão do Sporting. Nunca tinha visto o Sporting fazer um negócio a este nível, de patrocínios e de direitos televisivos, melhor do que os rivais.

P – Acaba por ser irónico o que Luís Filipe Vieira disse na apresentação do acordo com a NOS – que os €400 milhões seriam um referencial e que os outros clubes iriam beneficiar.
R – Há os que querem fazer as coisas de uma forma apressada, ou porque têm estratégias específicas, ou porque têm eleições [2016, presidenciais no Benfica], dívidas de dezenas largas, ou mesmo centenas de milhões para pagar. O nosso acordo é de €515 milhões, é um negócio tripartido, com a NOS e a PPTV. E o valor resulta de contas simples: os ativos, os custos desses ativos e o resultado líquido de agora até final do contrato. O Benfica fez o negócio que achou que devia fazer e teceu os comentários que achou por bem tecer. E o Sporting fez o negócio dele: o maior negócio de sempre do futebol português.

P – É o terceiro presidente de um clube a dizer isso no espaço de um mês…
R – Havia uma história que se contava, dos seis milhões [de adeptos do Benfica], que depois eram 14 milhões, mais a capa do jornal em que o país era vermelho e o resto do mundo azul, como se o Sporting, que é verde e os marcianos são verdes, só tivesse adeptos em Marte. Isso não é real. O mercado reconhece a grandeza, credibilidade e solidez do projeto do Sporting.

P – É possível saber os valores associados a cada uma das parcelas? Patrocínio da camisola, publicidade, etc.
R – Não, por questões de confidencialidade. Mas não escondemos nada naquilo que foi transmitido à CMVM. O Sporting não pode ser o mais prejudicado por ser o que melhor explica os seus negócios. Quando nós discriminamos o contrato, é porque temos esta maneira de ser e de estar. E o comunicado deixou isto bem claro: o Sporting vendeu a publicidade de primeira linha e na camisola, direitos televisivos e a exclusividade do seu canal a partir de 1 de julho de 2017.

P – O canal será exclusivo da NOS?
R – Sim. Qualquer presidente gostaria de estar em todas as plataformas de Portugal e do mundo inteiro. Só que, depois, há a realidade do negócio.

P – Este dinheiro que recebe é para abater passivo, recuperar valores mobiliários obrigatoriamente convertíveis em ações (VMOCS)…?
R – Este dinheiro é cash. Agora, vamos esperar para ver os relatórios e contas dos outros, para se perceber qual a real diferença entre os contratos. O dinheiro vai estar todo disponível para o Sporting, não vai para bancos ou comissões, que também são custos associados às receitas. O Sporting não está obrigado a destinar verbas para os bancos por causa deste contrato…

P – [interrupção] Que é o caso do Benfica?
R – Vocês é que o dizem, não sou eu. E no Sporting também não pagámos nenhuma comissão por este contrato…

P – [interrupção] Que foi o que aconteceu no FC Porto?
R – Não vou responder a isso.

P – Então refazemos a pergunta: foi-lhe proposto algum negócio que incluísse esse tipo de pagamentos?
R – Em termos de banca, não; em termos de comissões, sim.

P – De que operadora?
R . Não vou dizer.

P – O Sporting recebe já algum adiantamento financeiro com este acordo?
R – Houve renegociação dos contratos com a PPTV já para 2016. E os patrocínios são válidos já a partir de janeiro. Portanto, o Sporting joga já este clássico com a NOS na camisola.

P – Este contrato com a NOS também é válido por três anos e renovável anualmente a partir daí, como o do Benfica?
R – Tem que se entender o seguinte: com quem foram feitos os contratos e que duração tem a vigência com cada uma das entidades. Se calhar aí chega-se à conclusão de porque é que este contrato é apresentado de uma forma e o do Benfica de outra.

P – O que quer dizer com isso?
R – Nada. Só isso. Ouço dizer que o Benfica pode renegociar o contrato daqui a três anos e que vai rebentar a escala. Mas não estou preocupado com o que vai acontecer.

P – Este contrato permite-lhe respirar melhor, por causa do caso Doyen e da não entrada na Liga dos Campeões?
R – Ainda não aconteceu nada no caso Doyen, a não ser uma primeira decisão [do Tribunal Arbitral do Desporto (TAS)]. Estamos a trabalhar no recurso e não temos dúvida de que no mínimo há situações previstas na lei cível e na lei desportiva que tiram a validade ao contrato com a Doyen. Porque há questões de desproporcionalidade nos ganhos possíveis e porque não pode haver intromissão na gestão desportiva. A partir daí, o Sporting denunciou o contrato, pagou todo o valor que a Doyen tinha investido e foi defender os seus direitos. Quanto à não entrada na Liga dos Campeões, foi um revés, mas com este contrato [com a NOS], acho que resolvemos alguns problemas.

P – Há a ideia de que processa tudo.
R – Nós já cumprimos vários contratos hediondos. Mas não eram nulos ou anuláveis. Eram só péssimos negócios. Mas depois há casos mais falados. A Somague, por exemplo, veio fazer exigências de última hora, que contrariavam o próprio concurso; o que é que o Sporting podia fazer quando, depois, de aceitarem, vieram pedir coisas que não estavam previstas na adjudicação? 

P – Qual a ordem de valores dos processos em tribunal?
R – Posso dizer-vos que quando entrámos no Sporting havia cerca de €21 milhões de assuntos que eram considerados na reestruturação financeira como contingências. Eram assuntos que estavam a decorrer, em tribunal ou ainda não, e que não seriam cobertos pela reestruturação. O Sporting teria de arranjar verbas pelos seus meios para os pagar. Dessas contingências de €21 milhões, até agora, sem custo nenhum para o Sporting, já foram resolvidos €19 milhões. Isto significa que o Sporting pela primeira vez está a dar lucro, está a pagar as suas dívidas aos bancos, está a amortizar capital em dívida e consegue ainda resolver €21 milhões de problemas herdados.

P – O Sporting e o Benfica eram a favor da centralização dos direitos televisivos. O que correu mal?
R – O Sporting era a favor da centralização, ponto. Fomos os primeiros a falar nisto. Mas, a partir do momento em que um dos clubes [Benfica] que faz parte da presidência da Liga e que assina um business plan em que estava escrita a centralização, depois avança para outro lado e fura o acordo… o Sporting tinha de ir para o mercado.

P – E como fica Pedro Proença, presidente da Liga, neste filme?
R – Quando um clube lhe puxa o tapete, depois de assinar um contrato, vai fazer o contrário e ele vem dar os parabéns, porque é um bom sinal para o futebol português… A partir daí, deixa de haver compromisso. Não podemos agradar a gregos e troianos. No futebol, não dá. Quando alguém quebra um compromisso tem de ser avisado. O Pedro errou e muito.

P – Diz que gosta de pensar a longo prazo. Estamos a chegar ao final de 2015. No início do ano pensava em contratar Jesus e ter este contrato com a NOS?
R – Tenho duas características: ambição e amor ao clube desmedidos. E se não tivesse essas duas características, não estava onde estou hoje. Se me perguntasse que tinha isto pensado exatamente assim, não, mas queria pôr o Sporting no lugar em que ele deve estar. No dia em que deixar de ser uma mais-valia, o sócio Bruno de Carvalho dará um pontapé no rabo do presidente Bruno de Carvalho. Quero um Sporting vencedor, campeão, com mais sócios ainda, e tudo farei para chegar aí. Quero fazer melhor, melhor, melhor…

P – €515 milhões é mais do dobro do passivo atual do Sporting. Este negócio permite repensar o projeto para o clube no médio prazo?
R – O Sporting precisava de ousadia e coragem. Costuma dizer-se que a sorte protege os audazes e que a sorte dá muito trabalho. Ora, como trabalhamos muito, temos sorte, e temos sorte porque somos audazes. Este contrato não muda nada. A nossa ambição mantém-se.

P – Relativamente às VMOC, este negócio pode acelerar a recompra?
R – O Sporting tem até 2026 para ter o dinheiro suficiente para manter a maioria da SAD. Sempre assumimos que essa é a vontade desta administração. Porque acreditamos que é importante manter essa posição.

P – Que operador tem em casa?
R – É a NOS. Já tinha antes. O Sporting respeita todos os seus parceiros, sejam atuais ou antigos e a PT foi parceira do Sporting durante muito tempo. Mas, para mim, desde o primeiro dia foi fácil escolher o operador em minha casa, porque a MEO tinha o canal do Benfica…

P – Curiosamente, a MEO tem agora o Cristiano Ronaldo, a pérola da formação do Sporting, como novo rosto.
R – É uma forma de limparem a imagem com que ficaram por terem sido os primeiros a ter o canal do Benfica… Estou a brincar, mas é verdade: foi por isso que escolhi a NOS. Podem dizer que sou um obcecado, mas não me apetecia ter esse cana

“Não ganhar o título será grande desilusão”

P – Este contrato com a NOS também permite não ter de vender nenhum jogador?
R – Já tinha dito que não sairia ninguém do Sporting que o Sporting não quisesse. Isso era claro e evidente antes desse negócio.

P – Este dinheiro pode acelerar o projeto desportivo?
R – Em quê? Temos o melhor treinador, o plantel que é considerado como o mais valioso, o pavilhão está em crescimento, voltou uma modalidade histórica como o hóquei que ganhou logo uma taça europeia no regresso, volta agora o ciclismo para honrar a memória do Joaquim Agostinho… o que é que quer que se faça mais?

P – Será uma desilusão se não for campeão?
R – Tendo em conta a onda verde que se criou, a alegria que se vê nos olhos dos sportinguistas, a fé e a crença que se sente, estaria a ser hipócrita se não dissesse que seria uma grande desilusão.

P – O clássico Sporting-FCP Porto é decisivo?
R – É um jogo muito importante, são duas excelentes equipas e estamos a falar de um jogo que pode mudar ou sedimentar posições no campeonato. Tem esses dois picantes, mas muitas vezes os campeonatos ganham-se ou perdem-se nos outros jogos. E é nisso que a equipa tem de estar focada.

P – Levou a mal que Jorge Jesus tenha falado do FC Porto na entrevista à TVI e dito que gostava de ser campeão nos três grandes?
R – Ele não disse propriamente isso, porque eu também vi a entrevista. Mas quando lhe perguntam 50 vezes se fecha a porta, se fecha a porta e se fecha a porta… bem, a mim bastava perguntarem uma vez e eu diria logo que fechava a porta a tudo o que não fosse o Sporting, porque o meu grau de gosto só tem o Sporting. Mas eu percebo, porque ele é um profissional e estamos a falar de um clube grande e nunca se sabe o futuro.

P – Como está o assunto Carrillo?
R – Já disse várias vezes que o Carrillo é um assunto delicado. Não é fácil. As coisas têm uma velocidade vertiginosa na vida e o que ontem era verdade hoje já é mentira. Ontem o Sporting precisava de muito dinheiro e hoje se calhar já não precisa. Temos de ter a sensatez de estar calados. As pessoas podem dizer que eu nunca estou calado e que agora venho falar na sensatez de estar calado. Mas uma coisa é falar e saber do que se está a falar e tirar consequências positivas do que se fala. Outra coisa é falar por falar e aí a coisa corre mal.

P – Está preparado para que o Carrillo fique sem jogar?
R – Estou a dizer que ele está num processo disciplinar. Sei que o comunicado que emitimos sobre o caso era maçudo, mas quem quiser ficar a saber tudo, é dedicar meia hora a lê-lo.

Texto Pedro Candeias (pmcandeias@expresso.impresa.pt) e Adriano Nobre
Foto João Lima

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