quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Jorge Jesus com ´Ponto Final´


Leia a entrevista na íntegra de Jorge Jesus ao Jornal macaense, ´ponto final´.

"Esqueçam José Mourinho, André Vilas-Boas ou Nuno Espírito Santos, todos eles longe dos seus melhores momentos. O treinador português mais marcante da actualidade é mesmo Jorge Jesus, que em poucos meses no Sporting
já conseguiu vários milagres. O PONTO FINAL entrevistou-o há dias em Lisboa.

Luís Francisco

 – Neste momento, há algum português que não saiba quem é o Jorge Jesus?
Jorge Jesus – (Risos) É normal que não… Pela paixão que há pelo futebol, pela clubite que há por Benfica, Sporting e Porto, neste caso mais Benfica e Sporting, acho que não. Só se forem aqueles que ainda estão por nascer…

– Como é que lida com a fama?
J.J. – Lido bem, porque refugio-me muito na minha rotina, no meu trabalho e no meu espaço. Ou seja, agora no Sporting passo muito tempo na academia [de Alcochete] e de lá vou para casa ou, quando não estou em casa, fico sempre ligado a um grupo restrito de amigos, com quem almoço ou janto. Não fujo muito deste padrão de vida.

– Não sai muito à rua?
J.J. – Não…

– Não lhe aparece aquele adepto que mete conversa?
J.J. – Aparece, aparece. Mas não vou a centros comerciais, não frequento muito sítios públicos. Mas quando vou a restaurantes ou a qualquer espaço público, encontro muitos adeptos, do Benfica, do Sporting, do FC Porto. E ao longo destes meus anos de carreira fui sempre bem tratado.

– Nunca teve problemas?
J.J. – Pelo contrário. Os problemas são mais da emoção das pessoas com a minha mudança do Benfica para o Sporting. Na faixa etária de jovens até aos 15 anos, que cresceram habituados a ver-me no Benfica, e os mais novos, seis, sete, oito anos, que vêm ter comigo e perguntam: “Por que é que tu mudaste para o Sporting?” E dizem isto com uma ingenuidade e um sentimento que eu não lhes sei explicar, se fosse um adulto seria mais fácil. Mas tento responder… e o que é curioso é que já tive algumas crianças a fazerem-me esta pergunta a chorar.

– E aí é difícil.
J.J. – É difícil. É mesmo difícil. Já tive uma criança que chorava e repetia a pergunta: “Mas por que é tu mudaste?” Tem sido complicado, nessas situações. Naquele momento não é possível explicar-se… Nunca esperei que isto pudesse acontecer. Não tive a noção de que a minha mudança para outro clube pudesse mexer tanto com os sentimentos de algumas pessoas, gente que gostava do Benfica e gostava de mim.

– E a crítica, lê muito, está atento ao que se diz?
J.J. – Não. Nem pela positiva nem pela negativa. Tento refugiar-me no meu mundo: a minha casa, o meu trabalho, a quilo que tenho de fazer pelo meu clube, o que tenho de planear, de passar para os meus jogadores – a minha ideia, a cultura táctica que quero que os jogadores percebam, a minha mensagem. E este mundo tira-me tempo para pensar noutras coisas e pouco vejo do que se vai dizendo ou escrevendo na comunicação social. Isto pode ser bom, pode ser mau… às vezes esta ingenuidade protege, faz com que a pessoa não sinta tanto toda esta pressão, esta confusão. Agora, como é óbvio, eu sei que a comunicação individual e colectiva de uma equipa tem muita influência depois nos juízos de valor dos adeptos. Por isso, também tento não ficar desprotegido ou fora do âmbito das coisas. Mas não sou eu que me aproximo dessas coisas, elas são partilhadas normalmente por pessoas que trabalham comigo e que me vão dando informações.

– E quando a crítica vai para lá da esfera profissional e chega a uma área mais pessoal? Um exemplo: quando se comenta a sua forma de falar.
J.J. – Todos nós damos calinadas. Mas eu sei que tenho de ter algum cuidado e cada vez tenho de ter mais. Só que não valorizo muito esses aspectos, valorizo sim a minha formação de treinador, ou seja, aquilo que eu sei fazer, a faculdade que eu tive de desenvolver e evoluir no sentido de criar as minhas ideias. Isso é que me dá conforto, segurança. Depois, se eu não pronunciar bem uma frase em inglês… eu não estudei inglês, nem fui formado para ser professor de português! Agora, tenho de ter algum cuidado, porque sou uma pessoa referenciada. Mas o que me importa saber é daquilo que me compete: eu sou um especialista de treino, sou um especialista de trabalhar com seres humanos. Nesta área, aqui sim, é que eu me dedico, tento ao máximo evoluir e é esta área que me vai valorizar na minha profissão. As outras áreas… claro que tenho de saber das outras coisas… mas, repare, eu sou uma pessoa genuína, não há pessoas a briefarem-me, eu falo pela minha cabeça. A bem ou mal, porque também há algumas coisas que não devia ter dito, mas enfim, não vou mudar. Não é agora que vou mudar.

– Tem hobbies, o que faz nos tempos livres?
J.J. – Não tenho hobby. Os meus tempos livres são passados com os amigos, à mesa. Não tenho muitos tempos livres. E os que tenho, acho que sou uma pessoa um bocadinho fora do normal. Todas as pessoas gostam de viajar, eu não gosto de viajar. Todas as pessoas gostam de sair do país para passar férias, eu não gosto. Gosto de estar no meu espaço, gosto das pessoas que pessoas que foram, de certa forma, criadas comigo, gosto da zona onde passei a infância e a adolescência [a Amadora]. E a minha satisfação é essa. Os meus tempos livres é estar próximo dos amigos, da família, das pessoas de quem gosto. Estar no meu cantinho, não gosto de coisas que fogem do meu hábito.

– E com os amigos, falam de futebol?
J.J. – Ui, sempre. Isso é sempre! Tenho amigos do Sporting, do Benfica, portistas há poucos, e o que é curioso é que consegui que os meus amigos fossem convertidos. Ou seja, os que eram do Sporting queriam que o Benfica ganhasse quando era o Jesus o treinador e agora é ao contrário: tenho amigos benfiquistas que já vão ver o Sporting, já estão muito interessados nos resultados do Sporting. Acho importante focar isto, porque a amizade está acima dos clubes. É assim que tem de ser.

– O Jorge Jesus treinador é supersticioso?
J.J. – Todos os desportistas são supersticiosos. Eu como jogador também era, pequenas coisinhas, como jogar sempre com os mesmos calções, ou com aquelas caneleiras… Como treinador, não sou supersticioso. Acredito é no trabalho e nas pessoas que trabalham comigo. Apesar de haver sempre um grãozinho…

– Qual foi o melhor jogador que treinou?
J.J. – Pablo Aimar.

– E um que lhe tenha dado luta, como se fosse um filho complicado?
J.J. – E deu jogador… porque tinha uma personalidade forte e passava o tempo a dizer-lhe que tinha de mudar, tinha de fazer isto, tinha de fazer aquilo… Foi o David Luiz.

– E, por fim, um que não tenha dado resultado?
J. – Tive ao longo da minha carreira vários jogadores que achava que mereciam ter sorte e que nunca consegui ajudar tanto como eu gostava. O Yannick Djaló, miúdo espectacular. O Kardec, o César Peixoto. Três jogadores com quem tinha uma relação muito boa, eram amorosos comigo e eu achava que eles mereciam ter sorte e nunca se conseguiram afirmar, apesar do seu valor.

– O Jorge Jesus é também famoso pelas suas adaptações. Diga-nos um jogador que tenha “inventado”. E como é que isso se faz?
J.J. – Primeiro tens que olhar para o jogador não só do ponto de vista da qualidade técnica, mas também a componente física: será que este jogador tem as condições físicas para desempenhar esta função? A partir vais para a técnica e para a táctica, que tens de lhe ensinar. É preciso ter em conta estas três vertentes: física, técnica e táctica. Agora já há muitos treinadores a tentarem fazer o que eu fiz, mas é preciso mais do que meter um jogador a jogar numa posição, isso é curto, tens de ver se o jogador tem condições para o fazer. E tudo começa no físico. Um jogador que se transformou completamente, de um ala para um médio organizador, foi o Enzo Pérez. É o mais difícil, porque é preciso fazer com que ele acredite que pode fazer essa posição. O Fábio Coentrão passar de extremo a lateral, não é uma transformação tão radical. O Enzo e o Matic, que era “10” e passou a “6”, são os jogadores que eu tirei da sua posição para encaixar na ideia que tinha de jogo. Mas isto só se faz se o jogador acreditar que é capaz: se ele não acreditar, nada feito.

– Se tivesse agora um filho chamava-lhe 4-4-2?
J.J. – (Risos)

– Explique lá a sua fixação pelo 4-4-2. É o melhor figurino para uma equipa entrar em campo?
J.J. – O melhor figurino, não há. Cada equipa, cada treinador, acredita no seu sistema. O 4-3-3, o 4-4-2, o 3-5-2, não há “o” melhor sistema. O que importa é saber desenvolver o sistema – e há muitos treinadores que se agarram ao sistema e não sabem desenvolvê-lo. Os sistemas de jogo, como é óbvio, têm dinâmicas e é preciso dar-lhes uma ideia. Tudo parte do sistema, a primeira abordagem a ter é em relação ao sistema. É a partir dele que defines tudo: a forma como defendes, a forma como atacas, a forma como pensas o jogo. E isso é uma criação do treinador. As jogadas das minhas equipas são criadas pela minha cabeça e executadas pelos jogadores. Sou eu que as crio, em função dos posicionamentos dos jogadores. Para mim, o futebol é arte. Arte de quem joga e arte de quem treina. O treino e o jogo são isso: a junção da arte de quem treina com a arte de quem joga. O treinador é um pouco como o jogador, tem de nascer para o ser. Depois desenvolve-se. Com treino. O treinador só perceber de treino não chega, há muitas coisas que o envolvem e que ele tem de perceber.

– Alguma vez o treinador será mais importante do que os jogadores?
J.J. – Podes ter 11 bons jogadores, mas se não tiveres um bom treinador não ganhas. Porque os 11 bons jogadores pensam cada um pela sua cabeça. O que importa aqui é teres um treinador que saiba rentabilizar o pensamento da equipa em função da qualidade individual dos jogadores. Na minha opinião, numa equipa de sucesso, 60 por cento é do treinador.

– Portanto, um bom treinador com jogadores medianos consegue resultados.
J.J. – A jogar contra uma equipa que tem bons jogadores e um mau treinador, eu com jogadores menos bons mas bem orientados consigo ganhar.

– Tem ideia de quantas vezes sai da sua área técnica durante os jogos?
J.J. – Não, nenhuma. Nem dou por isso. Aliás, até costumo pedir ao quarto árbitro que me avise, porque eu estou a olhar para o jogo e nem sei onde estou. A minha emoção do jogo, o querer partilhar com os meus jogadores… agora, também tem a ver com o resultado.

– Entrar em campo já é mais raro.
J.J. – Entrar em campo, entrar em campo… a última vez o jogo estava parado, foi com o Tondela, não queria que fosse o Adrien a marcar o penalti e eles não me ouviam. Tive de chegar mais perto. E com o Moreirense, aí fui expulso. Quando faço as coisas não é intencional, é com emoção, a paixão. Porque o treinador… as pessoas dizem: “Ah, os jogadores não ouvem.” Ouvem, ouvem. E tem muita importância, esta comunicação faz a diferença em relação aos técnicos que dizem nada. E alguns não podem mesmo dizer; eles não vêem! Vão dizer o quê? Quando se vê treinadores sentadinhos no banco, não se mexem, não dizem nada… mas vão dizer o quê, eles não estão a ver nada!

– Você ainda era jogador do Almancilense e já passava o tempo todo a dar instruções em campo. Os seus colegas de equipa não o achavam um chato?
J.J. – Foi assim que comecei a minha carreira de treinador. Num desses jogos, no final da partida, o presidente do Amora foi ter comigo e convidou-me para treinar a sua equipa. Ele estava no banco e percebeu que eu era jogador, mas era na prática o treinador… Eu disse-lhe: “Mas eu sou jogador.” E ele respondeu: “Mas eu vi que o treinador desta equipa és tu.” E foi assim começou a minha carreira de treinador.

– Há algum treinador da I Liga que seja seu amigo?
J.J. – Prefiro ver a coisa ao contrário: penso que nenhum é meu inimigo. Todas as semanas estamos em competição, cada um tem de defender o seu clube e a forma como o fazes origina que as pessoas pensem que há ali inimigos. Não é verdade. Há adversários. O André Villas-Boas, o Vítor Pereira, hoje somos grandes amigos. Mas quando eles estavam a defender a sua dama e eu a minha, cada um tinha de o fazer da forma que achasse mais eficaz. Como hoje, não tenho nada contra o Rui Vitória ou o Lopetegui, só que eles são treinadores dos meus rivais e eu tenho de defender a minha equipa.

– Alguns dos que mencionou estão hoje a trabalhar no estrangeiro. Desse lote vê algum especial?
J.J. – Os portugueses vão sempre ter carreiras especiais porque nós somos melhores do que os outros. Mas em todas as áreas, não é só no treino: é na organização fora treino, na organização fora do treino, na estratégia do jogo, na táctica do jogo, na forma como estamos no banco e conseguimos ver o que está a passar no jogo… Os treinadores portugueses são os melhores do mundo, que ninguém tenha dúvidas!

– Porquê?
J.J. – Porque as dificuldades fizeram com que fôssemos melhores do que os outros. A necessidade de teres de aprender muitas áreas do que é o futebol abriu-te horizontes que, por exemplo, os treinadores brasileiros não têm. Como têm os melhores jogadores do mundo (sempre tiveram), nunca foram obrigados a crescer na área do treino. E hoje foram ultrapassados, estão atrasados 20 anos em relação a nós.

– E para si, o que antevê em termos de carreira?
J.J. – Não sei, a carreira do treinador é o dia-a-dia. Se me perguntam se tenho ambição de treinar fora de Portugal, não tenho muita. Só se houver um projecto que me diga que posso ser campeão no país onde estiver e também ser campeão europeu. Mas isto é agora, neste momento. Se calhar daqui a um ano ou dois, se calhar já penso diferente. Tens de escolher com base em duas coisas: a área desportiva e a área financeira. E se calhar daqui a uns anos escolho a segunda, vou para o Qatar, para a Arábia, para a China, porque me vão pagar o que os outros não pagam.

– Por falar em China, acompanha o futebol asiático?
J.J. – Não muito. Vejo jogos do futebol árabe, por causa da Al-Jazeera, e eu gosto de estar sempre de olho, para ver os jogadores que andam por lá (um dia eles podem estar fartos de ganhar tantos dólares e quererem voltar para a Europa…), mas tirando isso não tenho muito conhecimento do que se passa mais a Oriente, porque não temos informação.

– Mas o Sporting está a lançar parcerias para a constituição de várias academias na China. Genericamente, o futebolista asiático tem características interessantes?
J.J. – Tem. Normalmente é um jogador rápido e isso é meio caminho hoje no futebol. O que eles têm mais dificuldade é a questão táctica e técnica, porque tem a ver com a formação. Se não tiveres um bom professor, neste caso um bom treinador, não te desenvolves. E no dia que esses grandes países (em população) começarem a criar quadros de treinadores com qualidade… e a China está a fazer isso, lança livros sobre futebol logo na primária, está a tentar pôr técnicos nos clubes. Dentro de alguns anos eles estarão a organizar um Campeonato do Mundo e já estão a preparar-se. Para o fazer, têm de recrutar técnicos estrangeiros. É esse o caminho para formar grandes jogadores. Mas as aptidões dos futebolistas asiáticos são óptimas, porque se baseiam na velocidade.

– Vamos ao Sporting. Juntar Jorge Jesus, Octávio Machado e Bruno de Carvalho, três pessoas com o coração ao pé da boca, parece a receita para uma bomba artesanal. Como é que está a correr?
J.J. – Sabe que as pessoas com o coração ao pé da boca são as mais fáceis de lidar! São pessoas que dizem o que sentem e depois de o fazerem é fácil chegar a um entendimento. Aqueles que não dizem nada é que são perigosos… O Octávio já tinha sido meu colega de equipa, é um profissional que tem muitas qualidades para aquilo que queremos desenvolver no Sporting. O presidente tem a sua maneira de ser, eu tenho a minha e até hoje temos uma união muito forte, parece que é uma amizade já com muitos anos.

– Os bons resultados também ajudam…
J.J. – Claro, quando se ganha tudo é fácil. No dia que não se ganha é que se vê como são as coisas.

– E como é ter o presidente sentado no banco de suplentes durante os jogos?
J.J. – Normal, não interfere com o meu trabalho.

– Tiveram alguma conversa prévia acerca disso?
J.J. – Quando vou para um clube, estabeleço logo as regras, não deixo dúvidas sobre aquilo que quero. As pessoas têm o direito de não querer o mesmo e aí eu não vou.

– Portanto, a regra básica é: o presidente está no banco mas não interfere.
J.J. – No banco e em tudo o que tenha a ver com a equipa, sou eu. Tudo o que tenha a ver com clube, é o presidente. Ele é a entidade máxima.

– E durante o jogo?
J.J. – Os jogadores, sim, gosto que eles opinem. Agora os dirigentes não. Estão ali, não quer dizer que não se envolvam, mas dar opiniões para dentro do campo, isso esquece. Só dá uma vez, não dá mais.

– Há diferenças significativas entre o que era o Benfica e o que encontrou no Sporting?
J.J. – Não. Claro que estivemos no Benfica seis anos e nesse período o Benfica foi crescendo com as nossas ideias e eu fui crescendo com as ideias deles. E no Sporting tem sido a mesma coisa. Só que agora tenho um “know-how” muito maior do que quando cheguei ao Benfica. Tudo o que não é de campo e do treino tem sido gerido no Sporting com muita paixão, por pessoas com um enorme sentido de missão e vontade de ajudar. Não há um departamento do Sporting onde eu não sinta um carinho enorme, uma vontade de partilhar as ideias do treinador.

– É mais fácil para si esta fase no Sporting, por comparação com a que teve no Benfica, porque entretanto cresceu como treinador?
J.J. – A dificuldade é igual, porque quando chegámos ao Benfica, o Benfica também não ganhava nada há muitos anos. O Sporting ainda conquistou a Taça, o Benfica nem isso. Para ganhar títulos, não chega ser só treinador de campo. É curto para equipas como o Benfica ou o Sporting. Hoje, para seres treinador de Benfica, Sporting ou FC Porto, se não tiveres um conhecimento global para lá do treino, vais falhar, não consegues alcançar os teus objectivos.

– Fale-me de uma boa surpresa quando chegou ao Sporting.
J.J. – Uma boa surpresa: as pessoas. Sinto que toda a gente quer partilhar as ideias do treinador. E o Sporting tem muito boas condições de trabalho.

– E pela negativa?
J.J. – O que achei que não estava tão bem: o Sporting, ao longo destes anos, foi perdendo referências, poder, história. E isso é o tempo perdido que temos de recuperar. O Sporting tem identidade, tem história, tem massa adepta e eu senti que nestes aspectos o Sporting estava em perda. E isso significava perder o poder nas instâncias certas.

– Como é que se ganham tantos jogos nos últimos minutos? E isto tendo em conta que a imagem que se cola ao Jorge Jesus no Benfica é exactamente a oposta…
J.J. – Principalmente aquela final europeia (com o Chelsea)… Olhe, é assim, isto é acreditar no que fazes. Mesmo não sabendo nadar, se estiveres à beira do afogamento, tu vais até ao último suspiro, até à última braçada que consegues dar. E às vezes consegues salvar-te. Às vezes. Agora, quem desiste é que não se salva de certeza. Os jogadores do Sporting acreditam até ao último momento que podem chegar lá, ao golo. E até agora tem corrido bem.

– E, afinal, isso até acaba por moralizar…
J.J. – Mas ninguém acredita se não sentir que é capaz de fazer! Porque acreditamos na nossa qualidade e na qualidade do nosso trabalho. E os jogadores do Sporting acreditam cegamente porque é essa a nossa forma de treinar.

– Este Sporting já tem espessura para ser campeão?
J.J. – Neste momento tem espessura, tem lastro para neste primeiro terço de campeonato – e já com um título ganho [a Supertaça] – desenvolver toda uma ideia de jogo, uma metodologia que afinámos. Que ela chegou a um ponto de afinação, sim, mas não chegou a um ponto de afirmação. Ainda não somos uma equipa que se possa afirmar. Ainda há muito para crescer.

– E tem jogadores suficientes para isso?
J.J. – Vamos tentar que em Janeiro possamos dar um retoque em relação à quantidade de jogadores. Eu cheguei ao Sporting e não conhecia minimamente… Eu nunca pensei treinar o Sporting, nunca! Cheguei sem conhecer muito bem os jogadores. Gelson [Martins], Matheus [Pereira], [João] Palhinha, disse para fazerem a pré-época e logo se via. Só depois de ver a equipa B treinar é que os chamei, a esses e ao Daniel [Podence]. Só com o passar do tempo é que tive conhecimento da matéria-prima do Sporting, o conhecimento que agora me permite tomar decisões mais afirmativas, mais fáceis. Mas repare: o Sporting perdeu os melhores jogadores: Nani e Carrillo! Já alguém me ouviu chorar por causa disso? Ninguém em Portugal tem capacidade financeira para os segurar, um já foi para a Turquia e o outro há-de ir, nem sei para onde. Em relação ao Carrillo ainda posso ter alguma esperança para esta época, mas no final ele sai. O Sporting não perdeu duas referências, perdeu os seus dois melhores jogadores da época passada.

– As contratações para esta época foram feitas por sua indicação?
J.J. – O Bryan Ruiz não, ainda era treinador do Benfica e já havia notícias sobre isso. Os outros, sim, fui eu que indiquei.

– Saiu do Benfica porque Luís Filipe Vieira lhe disse que não ia haver dinheiro para reforços?
J.J. – É uma história mal contada. Se tu trabalhas 11 meses num clube e a época acaba sem te convidarem para renovares, percebes que as pessoas não querem que continues. E o presidente do Benfica tinha todo o direito de não querer. Agora, não me ponham a mim como vilão, porque eu não tive nada a ver com isto. E essa foi a imagem que quiseram passar.

– Se dependesse de si, tinha continuado no Benfica?
J.J. – Não sei…

– Com as condições que considerasse necessárias, teria renovado?
J.J. – Neste momento, é difícil dizer. Eu sou muito orgulhoso e as questões financeiras não me atrofiam a identidade, a minha paixão. Nunca andei atrás do dinheiro, tirando Benfica nunca ganhei muito dinheiro. Nunca andei preocupado com isso, a minha preocupação era contar os tostões… Nunca foi o cifrão que me fez oscilar. A partir do momento em que percebi que não era a pessoa indicada para fazer parte da continuidade, as questões financeiras deixaram de se colocar.

– E o que sente, após seis anos na Luz, perante a ofensiva legal do Benfica?
J.J. – Isto alterou até a minha forma de olhar para as coisas com sentimento e paixão. Isto dá-me cada vez mais gás, mais motivação para defender a minha entidade patronal, que é o Sporting. É o que faço com todos, mas aqui ainda mais porque acho que não mereço o que me fizeram. Não falo da saída do Benfica, mas do que se passou depois de sair do Benfica, toda esta onda de comunicação mentirosa para pôr os adeptos do Benfica contra mim. Estou de corpo e alma no Sporting como estarei em qualquer clube onde trabalhe. Porque a minha prioridade não é o nome do clube; aquilo que me faz mover, apaixonar, dedicar, chama-se futebol. Foi o futebol que me formou como homem, foi o futebol que me ajudou a ter uma vida familiar se calhar melhor do que teria noutra actividade. E, portanto, para mim nada é mais importante do que o futebol. Não há nenhum clube mais importante do que o futebol.

– Arrepende-se de alguma coisa que tenha feito no Benfica?
J.J. – Claro que sim, aprendemos com os erros. Assim de repente não me lembro, mas houve decisões que se calhar hoje não tomaria, decisões estratégicas, de jogo.

– E arrepende-se de alguma coisa que não fez e que devia ter feito?
J.J. – Essas coisas têm muito a ver com o jogo… Arrependo-me muitas vezes de indecisões de momento ou de decisões que depois se mostraram erradas. Fui contra a minha ideia de jogo e dei-me mal. No final isso vem tudo. E eu não exponho isso a ninguém, tudo o que eu faço é da minha cabeça, tenho uma equipa técnica que já trabalha comigo de olhos fechados, mas as decisões são minhas.

– Quando as coisas correm mal, custa-lhe a engolir?
J. J. – Penitencio-me, culpo-me. Quando as coisas correm mal, eu não passo a bola, tenho sempre de perceber porque é que correram mal, há sempre uma explicação. E isso faz com que eu me martirize muito. Mas esse processo também nos dá experiência.

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