segunda-feira, 17 de junho de 2013

"Plágio Leonino: Sir Mário M. Pereira"

Sir Mário Moniz Pereira, deu uma entrevista á revista do correio da manhã! Amorsporting, não podia deixar passar em claro, mais uma oportunidade de APRENDER com este grande SIR. Como refere esta rubrica: "Plágio Leonino" transcreve aqui na integra esta entrevista. Amorsporting também queria deixar uma ideia aos líderes leoninos: Não será este SR. digno de uma estátua? Aqui vão as suas palavras :
-Em que altura da vida é que se apercebeu de que havia mais gente a tratá-lo por professor do que por Mário?
Nunca tinha pensado nisso... Neste momento sou só o sócio n.º 2 do Sporting. Já não sou treinador de atletismo ou de voleibol. A minha vida foi sempre a ajudar no que era possível, mas o atletismo português nunca esteve tão mal. Não há dinheiro, só há para o futebol. Há pessoas que acham que eu não gosto de futebol, mas gosto.
-Até foi o preparador físico da equipa de futebol do Sporting campeã em 1970/71...
Pois. Mas neste momento é um exagero. A primeira coisa que me tramou foi quando o Sporting fez um estádio sem pista de atletismo. Foi a primeira machadada que me deram.
-Como é que descobriu que o novo estádio não teria pista?
Um dia vieram perguntar-me se queria ver as maquetes. Fui lá e estavam seis ou sete. Perguntei: “Qual é a que tem pista de atletismo?” E responderam: “Não há.” Ia-me zangando a sério. Como é possível? Treinava todos os dias, de manhã e à tarde, falava com toda a gente...
-O que foi feito da pista de tartan verde do antigo estádio?
Já tinha sido substituída. Mas o Sporting era campeão de atletismo em pista, além de também ser em corta-mato. O clube era conhecido em toda a parte do Mundo porque os seus atletas bateram recordes nacionais, da Europa, do Mundo  e até olímpicos em toda a parte. Não por causa dos jogadores de futebol.
-Acha que os dirigentes do clube foram ingratos com o atletismo?
Não quero ser juiz dessas coisas.
-Sentiu o novo estádio como um abalo ao seu sportinguismo?
Fiquei muito desgostoso, porque tinha uma obra. Já tínhamos batido recordes no_Japão, nos EUA, em_Inglaterra, em Itália, em_Espanha. A minha ida a 12 Jogos Olímpicos foi muito importante._Fui convidado para o curso de professores de atletismo de França e de Espanha. Outra machadada foi transformarem o futebol num desporto nocturno, o que foi um grande disparate. Antes as pessoas vinham da província ver os jogos. Acabava às cinco da tarde e iam para casa.
-Quando foi a última vez em que esteve no estádio?
Foi há pouco tempo. O barulho era tal, com a gritaria dos adeptos e dos adversários, que passei a primeira parte assim [coloca os dedos a tapar os ouvidos]. Vim-me embora ao intervalo porque nem via o jogo como deve de ser.
-Qual era o jogo?
Já não me lembro. As pessoas julgavam que esse barulho todo favorecia os atletas do Sporting. Disse a quem estava ao meu lado que se eu estivesse a jogar futebol nem saberia onde estava a bola. Há quem diga que a culpa é da televisão, mas se o Benfica, o Sporting e o FC Porto se metessem de acordo, resolvia-se tudo. Mas como nunca estão de acordo não há hipótese nenhuma...
-Fala-se de contenção no futebol. No entanto, os 50 mil euros mensais que serão o tecto salarial no Sporting chegam para pagar todo o atletismo do clube...
Temos atletas muito jovens, masculinos e femininos, que daqui a três anos poderiam resultar numa equipa bastante boa para os Jogos Olímpicos. O vencedor dos 100 metros nos campeonatos nacionais tem 17 anos. Quem me diz a mim que não poderá ser um dos melhores do Mundo? Mas tem de treinar de manhã e à tarde, como eu fazia.Sem esse trabalho não há hipóteses.
-Sente falta de estar todos os dias na pista com os atletas?
Era aquilo que eu fazia. Nunca faltei, nunca cheguei tarde, e toda a gente tinha de fazer o mesmo. Quando comecei, reparei que os treinos eram bons. A quantidade é que era insuficiente. Toda a gente tinha de treinar de manhã e à tarde. Conseguiu-se na minha altura e depois nunca mais. Vou dar-lhe um exemplo: a certa altura houve o Clube dos Vendedores de Jornais. Eles não iam treinar à pista, porque de manhã iam buscar os jornais ao Bairro Alto, depois uns iam ver quem chegava primeiro ao Cais do Sodré, outros ao Campo Grande... Só nisso já treinavam. E à tarde era a mesma coisa, porque havia os vespertinos. Não fazia o treino de qualidade, na pista, mas faziam a quantidade. Faziam pelo menos dez a 15 quilómetros por dia e isso foi de tal maneira bom que uma vez ganharam ao Sporting e ao Benfica na estafeta Cascais-Lisboa. A quantidade vencia a qualidade.
-É verdade que em miúdo já treinava os seus amigos?
Li sempre os jornais desportivos franceses e espanhóis, o que foi uma vantagem. Tinha gosto em que Portugal tivesse atletas de categoria internacional e toda a gente dizia que era maluco. E eu respondia: “Julgam que somos diferentes, mas não somos. Dêem-nos possibilidades de demonstrar.” Uma vez perguntaram-me o meu objetivo número um e eu disse: “Que um dia um atleta treinado por mim vá aos Jogos Olímpicos ganhar a medalha de ouro e que eu ouça o hino português ouvido em toda a parte do Mundo.” Responderam que era maluco, mas disse que ia tentar. Demorou 39 anos.
-Carlos Lopes não era nascido quando disse isso...
Demorou 39 anos o que toda a gente dizia ser impossível. Chorei que nem uma Madalena no dia em que aconteceu. Toda a gente dizia que era impossível e eu derrotei os impossíveis.
-Quando começou a trabalhar com Carlos Lopes e Fernando_Mamede percebeu que eles iriam bater recordes e ser campeões?
Percebi que acreditavam em mim e faziam sempre tudo quanto eu desejei fazer. Nunca faltaram aos treinos e eu nisso era intransigente. Nunca faltei a um treino e nunca cheguei depois das nove da manhã. Dava o exemplo. Já houve treinadores estrangeiros que estiveram cá muito exigentes e que iam para o Parque Mayer ver as senhoras. Se estivesse a chorer torrencialmente eu não ficava nas bancadas. Eles chegavam, iam para a bancada e viam: “Lá está o gajo.”
- Um grupo de treino transforma-se numa família?
O ambiente foi sempre muito bom. A equipa de corta-mato do Sporting era a melhor do Mundo.
-Tanto na geração de Lopes e Mamede como na dos gémeos Castro?
Houve continuidade do trabalho. Se um deles chegasse às 09h03 já lhe dizia boa tarde. Foi toda a minha vida assim. Mesmo quando íamos para campeonatos do Mundo o treino era às 09h00. Em Nova Iorque estávamos num hotel em Central Park. Disse logo que havia treino às 09h00, apesar de a corrida ser nesse dia, mas é claro que era uma coisa ligeira. O Carlos Lopes foi campeão do Mundo de cross e quando chegámos ao hotel os atletas disseram-me: “Professor, não diga que hoje não há festa?” E eu disse: “Claro que há festa! Podemos beber champanhe, só que o avião para Lisboa parte às quatro da tarde e amanhã há treino às 09h00.” (risos).
-Muitos fundistas tiveram vidas difíceis. Acha que isso é importante?
O que era importante era acreditarem em mim, não acharem que era maluquinho, como muita gente julgava.
-O atletismo português está pior do que estava quando começou a treinar?
Muito pior. O FC Porto, o Benfica e o Sporting deixaram de ter pista no estádio. É só futebol, futebol, futebol.
-Esteve quase a ver um dos seus atletas conquistar uma medalha olímpica em 1960, quando Manuel de Oliveira foi o quarto classificado nos 3000 metros obstáculos em Tóquio...
Ele veio oferecer-se para o ciclismo, mas estava à espera que o Sporting lhe desse a bicicleta. Ficou muito chateado, mas nesse dia era a final do torneio ‘Primeiro Passo’, que eu fazia para ver quem poderia treinar a sério. Fui ter com o Manuel de Oliveira e perguntei-lhe se podia fazer uma corrida de 700 metros. Tinha a certeza absoluta de que ele não ia fazer má figura e ganhou, com o recorde do torneio. Onze meses depois, esse mesmo senhor foi aos Jogos Olímpicos de Roma, em 1956, e bateu o recorde de Portugal dos 5000 metros.
-Sendo Portugal um país bastante fechado, tinham problemas nas vossas viagens?
Nunca tive problema nenhum. A minha equipa era uma família que fazia tudo aquilo que eu queria.
-E ainda lhes deu o exemplo ao participar em campeonatos para veteranos.
Das últimas coisas que fiz como atleta foi o Campeonato do Mundo na Suécia. Já tinha 57 ou 58 anos. Fiquei em segundo lugar no triplo-salto e no salto em comprimento (checkar...). Claro que fiquei satisfeito.
-Antes disso só tinha vencido no campeonato universitário...
Várias vezes. Mas com 58 anos fui ainda ao Campeonato da Europa, em França, e voltei a ser terceiro no triplo e no comprimento. E fiz melhor marca do que quando tinha 17 e era aluno do Liceu Camões, ficando em quarto lugar no comprimento, com 5,64 metros. Aos 58 anos fiz 5,90 metros.
-Qual é o segredo?
São os cuidados que a gente tem. Naquela altura era também treinador de voleibol do CDUL, onde o meu filho jogava, e quando começou o campeonato da segunda divisão um dos melhores atletas partiu um dedo. Joguei eu, com 58 ou 59 anos, e ganhámos o campeonato da segunda divisão. E ainda bati o recorde ibérico do salto em comprimento no meu escalão etário.
-Como se iniciou como treinador de atletismo?
Devo muito a um senhor chamado José Salazar Carreira, que ainda hoje não foi homenageado como deve ser pelo Sporting. Vivia na Avenida da República, ao pé do Saldanha, onde eu morei durante uns 25 anos. Era médico e tinha sido atleta do Sporting no voleibol, no atletismo, no andebol e no rugby, sendo depois treinador destas modalidades todas. Nas traseiras do prédio tínhamos um vaivém em que ele me emprestava revistas estrangeiras. Metia num saco e eu puxava, de varanda em varanda. Depois tocava uma campainha para avisar e devolvia-lhe. Se não fosse ele, não teria feito nada do que consegui. Foi muito meu amigo e fiquei muito triste quando ele faleceu. Pouco antes, ele disse à filha: “Chamas cá o Mário, ele vai à biblioteca e escolhe os livros que quiser.” Enchi o meu Volkswagen de livros muito importantes. Ainda tenho alguns cá em casa.
-A sua família encarou bem que quisesse estudar Educação Física?
Quando chegámos aos 16 ou 17 anos, eu e o meu irmão, que era um ano mais novo, pensámos que tínhamos de começar a ganhar dinheiro. A família não era rica para sustentar dois matulõezinhos. O mais fácil era entrar na Escola do Exército, porque começava-se logo a receber. Fizemos as provas físicas e passámos facilmente, mas era preciso ir à Faculdade de Ciências fazer cadeiras mais difíceis e espalhei-me ao comprido. Não entrei, ao contrário do meu irmão, mas foi o melhor chumbo da minha vida: se tivesse entrado talvez já estivesse morto, porque teria ido para a guerra. O meu avô, que era à antiga portuguesa, dizia: “O Nuno é oficial do Exército e o Mário anda a estudar para palhaço!” (risos) O Instituto Nacional de Educação Física era um fantochada para ele, mas não fiquei muito ofendido porque também gosto de palhaços.
-Fernando Mamede bateu o recorde mundial dos 10000 metros numa corrida em Estocolmo, na qual Carlos Lopes também foi mais rápido do que o anterior máximo. Antes do tiro de partida sabia qual deles iria triunfar?
Sabia que ambos iriam bater o recorde. O Mamede era mais rápido no final, pelo que o Lopes tentou impor o andamento. O Mamede perdia 20 metros em cada volta à pista, mas quando aquilo se aproximava do fim foi muito rápido. Tanto me fazia que ganhasse um como o outro. Mas houve coisas muito aborrecidas com as famílias deles...
-Deve ser complicado quando é posta em causa a harmonia de um grupo de treino.
Foi. A mamã de um a dizer que eu gostava mais do outro... Gostava de ambos e disse-lhes no princípio que podiam ganhar os dois: “Tu tens de fazer o possível por ser mais rápido e tu tens de aguentar o andamento até ao final.”
-Esse momento foi mais importante para si do que a medalha de ouro que o Carlos Lopes conqusitou na Maratona dos Jogos Olímpicos de Los Angeles?
Los Angeles foi mais importante.. Aconteceu o que eu dissera desde o início: tivemos um atleta a ganhar a medalha de ouro e o hino português a ser ouvido, no estádio e em todo o Mundo.
-Mas poderia ter corrido ainda melhor, pois Fernando Mamede era um dos favoritos para o ouro nos 10 000 metros...
Não. Num campeonato europeu, mundial ou olímpico já sabia que não podia contar com ele. Depois de ter batido o recorde do Mundo, foi para os Jogos Olímpicos e disse-me que não se estava a sentir bem nos treinos. Respondi-lhe: “Então tu bateste o recorde do Mundo, já venceste aqueles tipos todos, e tens medo de fazer má figura?” Foi às eliminatórias e ganhou a todos. Passados três dias era a final e ele não queria ir. Quase que o obriguei, mas na primeria volta vinha em último. Dei-lhe um berro e por volta dos cinco mil metros desistiu. Já sabia que iria acontecer.
-O que é que ele lhe disse?
“Não sou capaz de correr.” A responsabilidade de um grande campeonato pesava-lhe e chegaram a pedir que eu arranjasse um psicólogo. Mas se eu não conseguia resolver o problema, tinha a certeza que ninguém conseguiria. Ele esteve dois anos e meio a ganhar todas as provas dos meetings internacionais em que entrou. Depois daquilo, os jornalistas que estavam em Los Angeles perguntaram-me se o Mamede tinha acabado e eu disse-lhes que dentro de 15 dias iríamos correr à Suíça, no meeting de Zurique. Foram lá todos os atletas que o tinham vencido nos Jogos Olímpicos, e o Mamede venceu-os a todos. Não há no Mundo um atleta como ele, que ainda tem os recordes nacionais dos 10 000 metros e da estafeta de 400 metros.
-A cabeça do Carlos Lopes era completamente diferente?
Era ao contrário. Dizia-me sempre: “Ó professor, eu vou lá é para ganhar.” Não era preciso dar-lhe conselhos nenhuns. E foi sempre assim.
-Se não tivesse havido o boicote aos Jogos Olímpicos de Moscovo, em 1980, acha que o Fernando Mamede teria chances de chegar à medalha?
Não. Bastava ser uns Jogos Olímpicos para bloquear.
-Como é que reagiu ao boicote?
Eu de política não percebo nada, nem quero saber. Só sei de desporto.
-Alguma vez treinou um atleta de que não gostasse enquanto pessoa?
A minha equipa era feita por mim. Apareceram uns meninos espertinhos, mas comigo estavam tramados.
-Quais foram os primeiros Jogos Olímpicos a que foi?
Foram os de Londres, em 1948. Já era o treinador do Sporting e a Federação convocou quatro atletas - três do Sporting e o quarto do Benfica, todos de comprimento e de triplo-salto. Fiz uma proposta de tomar conta dos quatro sem me pagarem nada. A guerra tinha acabado há pouco tempo e Londres ainda estava muito destroçada. As coisas correram bem, mas quando pedi uma fita para medirmos a corrida dos atletas antes dos saltos não me apercebi que aquilo era em polegadas em vez de centímetros. Quando começaram as provas, começaram a trocar os pés na corrida de balanço. Foi uma chatice, porque podíamos fazer uma boa figura.
-Dentro de todos os Jogos Olímpicos, os de Los Angeles foram os mais marcantes?
Batemos o recorde do Mundo e conseguimos a medalha de ouro... E o Carlos Lopes tinha sido atropelado. Eu tinha ido primeiro para Los Angeles e quando soube pensei que estava tudo perdido. Mas ele depois telefonou e garantiu-me que podia correr.
-Acreditou que os gémeos Castro também poderiam bater recordes mundiais e obter medalhas em grandes campeonatos?
Todos tinham essa possibilidade. O Domingos só não foi segundo nos 5000 metros nos Jogos Olímpicos de Seul, em 1988, porque o alemão da RFA [Dieter Baumann] e o alemão da RDA [Hansjörg Kunze] queriam ficar um à frente um do outro, pelo que recuperaram terreno. Quando chegou a última volta ultrapassaram-no e ele ficou em quarto. Chorou toda a noite. Não me posso esquecer disso.
-Agora faltam meios para fazer melhor?
A única vez que o Governo português me deu a responsabilidade de fazer a preparação dos Jogos Olímpicos foi em 1975, antes de Montreal. Fizeram tudo o que lhes disse. Os atletas que trabalhavam tinham de ser pagos pelo Estado para poderem treinar duas vezes por dia.
E foi assim que Carlos Lopes conquistou a medalha de prata nos 10 000 metros em 1976.
Eu escrevi que se a preparação olímpica fosse a mesma que até então, não valia a pena ir. Ninguém pode treinar para uns Jogos Olímpicos após oito horas de trabalho. Os nossos adversários não faziam isso. Um jornalista escreveu: “Moniz Pereira está no Algarve, com os seus atletas, a gastar o dinheiro do povo”. Telefonei para o gajo e disse-lhe: “O Carlos Lopes está no Algarve a treinar, mas trabalha nas bombas de gasolina. Ele é duque? O Mamede é conde? Explique-me lá quem é o povo...” E ele a insistir que não tinha dito isso. Pois não: escreveu, o que é muito pior. O Carlos Lopes ganhou a medalha de prata e só não fez melhor por causa do doping. O finlandês [Lassé Viren] punha o sangue no frigorífico, e não sei que mais, e estava provado que aquilo dava resultado. Quando acabou a corrida, foram chamados para o controlo antidoping o Lopes, o inglês que ficou em terceiro e o quinto, que era um espanhol. Perguntei onde estava o médico e fui pela escada acima, com os gajos todos atrás de mim. “Acha bem que o primeiro classificado não vá ao controlo antidoping?” Ele disse-me que eu tinha toda a razão, mas naquela altura era feita por sorteio. Fiquei muito desconfiado e passados 15 dias fomos à Escócia, para uma corrida de duas milhas. O Lopes e o homem que tinha ganho os 10 000 metros participaram, mas os três primeiros foram ingleses e o Lopes ficou em quarto, com 80 metros de vantagem do finlandês. O que quer isto dizer? Ele estava dopado nos Jogos Olímpicos.
-O doping destrói o atletismo?
Há sempre jogadores que inventam qualquer coisa. Há sempre uns espertalhões.
-Alguma vez sentiu que havia o risco de oferecerem algo aos atletas que treinava?
Isso não. Mas sabia perfeitamente quem é que se dopava. As russas começaram a bater recordes, dos 1500 para cima, que ainda hoje alguns atletas homens não fazem. Havia doping, de certeza absoluta.
-Como é que apareceu a música na sua vida?
Um dos meus avós, Raul Lopes Freire, era dono do Central Cinema, ao fim da Avenida da Liberdade. Passavam filmes alemães e eu ali não pagava nada. Entrava e saía quando me apetecia. De alemão não percebia nada, mas chegava a casa e tocava ao piano a música que ouvia.
-Nunca aprendeu música?
O que me salvou foi o Jorge Machado, que tinha uma escola de cantores ao domingo de manhã junto à Emissora Nacional, onde eu ia dizer os resultados das provas. Eu tocava as minhas músicas no piano e ele escrevia na pauta.
-Nunca pensou dedicar-se profissionalmente à música?
Agora já sou. Mudei de profissão. Já não me levanto às sete da manhã para apanhar chuva na Serra de Monsanto, com os atletas atrás de mim. Se fizesse isso já tinha morrido. Agora sou músico. Ouço uma música boa na rádio, vou ali ao piano e toco. E tenho mais de 100 músicas registadas na Sociedade Portuguesa de Autores.
-Fico orgulhoso quando é homenageado ou é uma daquelas pessoas que têm de ser arrastadas para as cerimónias?
Acho que sou homenageado demais.
-Mas isso traduz o respeito que as pessoas que lhe têm.
Há pouco tempo houve uma reunião no Museu do Desporto, no Palácio Foz, e descobri que havia uma Sala Moniz Pereira. Não tinha nada lá dentro, nem uma cadeira. Passados uns tempos, ainda mandei para lá umas coisas.
-E ninguém o avisou?
Eles é que sabiam. Puseram-me na primeira fila. Acontece que no outro dia houve uma reunião em que eu, a Rosa Mota e o Carlos Lopes fomos convidados. Era no Palácio Foz. A certa altura perguntaram se eu queria falar. Disse-lhes que não, porque se começasse a falar íamos ficar ali três meses, mas combinei dizer uma coisa só. Fomos almoçar, voltámos e acabei por dizer: para mim o desporto é uma festa e uma festa não é para se zangarem uns com os outros. Tem que se saber perder e não se pode ganhar der por onde der, nem que seja à bofetada. Sou o sócio n.º 2 do Sporting e, quer perca quer ganhe, venho sempre satisfeito. Nunca fui um atleta de categoria internacional - nem tenho físico para isso -, mas tenho um recorde do Mundo que ninguém bate. Devo-o ao Benfica, pois quando era treinador do voleibol do Sporting e jogávamos com o Benfica os jogos eram no Instituto Superior Técnico e quando acabavam, à meia-noite, íramos juntos jantar ao Café Império. Nunca houve problema nenhum, A certa altura, o Benfica veio pedir-me, sendo eu treinador do Sporting, para ser o árbitro dos jogos deles. Se isto acontecesse hoje acabava tudo à pancada. Mas isto é que é desporto. Não é esta tourada. As meninas a chamar nomes e a fazer gestos obscenos... Isto é que é o desporto?
-Quando chegou a Inglaterra na primeira vez, José Mourinho disse que era o ‘special one’. Sente que foi o mesmo no atletismo português?
Quando foi doutorado honoris causa pela Universidade Técnica de Lisboa, o Mourinho disse: “Estou aqui, mas não me esqueço que o primeiro foi o professor Moniz Pereira, que está aqui ao meu lado.” Fiquei muito admirado.
-E foi especial enquanto treinador?
Tenho a certeza absoluta de que fui um bom treinador. Os resultados estão à vista. Não fiz tudo bem, mas fiz o melhor possível. Consegui coisas que nunca ninguém fez.
-Como é que espera ser lembrado daqui a 20 ou 50 anos?
Isso já não me interessa nada (risos). Tive uma vida muito bonita, porque fiz sempre aquilo que gosto, e fi-lo bem.

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